XI ENONEGT: “Clínica, Norma e Exclusão: por uma prática implicada com a vida real”

O psicólogo e gestalt-terapeuta Gabriel Silva (CRP 12/17827), fundador da Casa dos Movimentos Gestálticos, conduziu em abril a aula "Clínica, Norma e Exclusão: por uma prática implicada com a vida real", uma das atividades pré-evento do XI Encontro Norte/Nordeste de Gestalt-Terapia (ENONEGT), congresso que será realizado entre os dias 19 e 21 de novembro de 2026 na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém.

A clínica frente às forças estruturais

Durante o encontro, Silva propôs uma análise crítica e inadiável sobre as bases da psicoterapia contemporânea. Segundo o gestalt-terapeuta, o mundo é estruturado a partir de forças sociais indissociáveis ligadas à raça, gênero e classe, forjadas historicamente pelo capitalismo e pela colonização.

"A ideia de uma vida universal e de um sujeito igual em todos os lugares reproduz uma clínica violenta, que apaga as diversas formas de ser e viver neste mundo", alertou o psicólogo aos participantes.

A aula aprofundou o modo como as normas sociais impactam pessoas em situação de vulnerabilidade, impedindo a construção de laços sociais e reduzindo existências inteiras a meros diagnósticos ou categorias fixas. Ao deslegitimar essas experiências e individualizar o sofrimento psíquico, fragiliza-se o acesso aos direitos básicos e ao próprio cuidado.

A reprodução velada da lógica manicomial

Um dos pontos centrais do encontro foi o reconhecimento de que a exclusão clínica frequentemente acontece de forma imperceptível. Ela se manifesta no olhar do terapeuta, naquilo que é naturalizado pela escuta e na formação de vínculos.

Para Gabriel, ao não questionarem os marcadores sociais que ocupam, os profissionais da saúde reproduzem o cerne da lógica manicomial, ironicamente agindo em nome do cuidado.

"Fomos ensinados, desde cedo, a deixar o mundo como está; a novidade e a diferença foram transformadas em medo, em vez de curiosidade. E, em nome do cuidado, muitas exclusões são vividas diariamente em nosso país", refletiu.

Letramento e construção de cidadania

Frente a esse cenário, como reinventar as práticas clínicas? A Casa dos Movimentos Gestálticos defende a radicalidade do acesso. A proposta não é formar uma clínica salvadora ou que pretenda dar conta de todos os problemas do mundo, mas sim construir ativamente lugares de cidadania. Isso exige da Psicologia uma implicação direta frente a lógicas estruturais racistas, misóginas, LGBTIAfóbicas e capacitistas.

A prática clínica inclusiva necessita situar-se no território onde as pessoas vivem, tornando o letramento racial e de gênero uma urgência para os terapeutas de qualquer abordagem. Segundo Gabriel Silva, o questionamento final que deve nortear os profissionais é a quem a psicologia está servindo.

"É preciso reinventar não a clínica, mas o mundo, a clínica se atualiza e transgride com ele", concluiu.

Casa dos Movimentos: a formação clínica em Gestalt-terapia

A Casa dos Movimentos Gestálticos é uma escola brasileira de Gestalt-terapia que atua majoritariamente online e sustenta uma clínica política e antimanicomial, atenta aos atravessamentos sociais que constituem a vida e que insistem em normatizar aquilo que é diferença.

A formação clínica em Gestalt-terapia oferecida pela Casa tem duração de dois anos, distribuída em vinte e cinco módulos e quatrocentas horas de atividades, conduzidas por dezesseis docentes vindos de universidades públicas brasileiras. O percurso integra fundamentação teórica densa e prática clínica encarnada. Uma vez por ano, em outubro, gestalt-terapeutas em formação e estudantes vindos de diferentes regiões do país se reúnem em Florianópolis para uma imersão presencial de três dias.

Outros movimentos pelo Brasil

A aula pré-ENONEGT integra um circuito de atividades formativas que a Casa vem realizando em parceria com coletivos clínicos, universidades e instituições brasileiras. No dia 16 de maio, Gabriel Silva conduzirá na região da Pampulha, em Belo Horizonte, o workshop itinerante "Caminhando por entre as coisas do mundo", em parceria com a Clínica do Indizível. A iniciativa propõe usar o ato de caminhar pelo território urbano como gesto clínico, lugar de escuta, presença e cuidado psicológico.

Em maio, a Casa também promoveu, em parceria com a Clínica do Indizível, o minicurso online "Invenções Partilhadas: criar-se Gestalt-terapeuta na clínica", sobre coragem e implicação autoral na prática gestáltica.

Anterior
Anterior

Invenções Partilhadas: A coragem e a implicação autoral do Gestalt-terapeuta na clínica

Próximo
Próximo

Marcele Emerim conduz domingo de Práticas Vivenciais na nova turma da Formação Clínica em Gestalt-terapia