Onde foi parar o afeto?

Às vezes me pergunto: onde foi parar o afeto?

O corpo é atravessado pela memória,
mas ela vem em lembrança, apego.
Dali, já não se pode mais tirar nada.

No apego e na saudade do passado,
como não há mais nada a extrair daquela memória empoeirada da caixa,
resta-nos questionar: lá era bom e hoje é ruim,
ou hoje é bom e ontem foi ruim?

A memória, em uma cultura normatizante e neurótica,
tornou nosso fundo de vividos um álbum de fotografias
que sempre estará lá,
mas sempre atrelado a uma suposta utilidade.

Nossos dados históricos são mais que isso:
são reivindicações dos caminhos que percorremos neste mundo
e que nos retornam como orientação,
em direção a um horizonte,
em busca da diferença, do novo.

O afeto talvez seja um álbum de fotografias
que nunca se encerra em si,
tem fome de mundo e do instante seguinte.

A vida não é útil, como nos conta Ailton Krenak,
e, possivelmente, nossas afetações, neste tempo vigente, também não.

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